Migueloestino na Itália conta como é viver no epicentro da pandemia

.- . quarta-feira - 25/03/2020 Jornal Imagem

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Entrevista a Edson Fuhrmann
   O engenheiro Victor Barasuol, 37 anos, de São Miguel do Oeste, e a esposa Daliarqui Perez Olmos, 31 anos, venezuelana, residem há seis anos em Gênova, na Itália, epicentro da pandemia de Coronavírus, com milhares de mortos. Victor é pesquisador no Instituto Italiano di Tecnologia e Daliarqui é Engenheira de Automação. Nesta entrevista, Victor conta como é estar no centro da crise mundial da pandemia   
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Imagem - Na percepção de vocês, em que ponto da pandemia a população da Itália começou realmente a se preocupar com o Coronavírus?

Victor Barasuol - Para uma comunidade que nunca teve tal experiência, a preocupação aparece de modo gradativo. Para nós aqui em Gênova, acredito que a preocupação se tornou relevante após umas duas a três semanas dos primeiros casos. Tudo gira em torno do quanto as pessoas pensam que o vírus é agressivo e o quanto ele pode estar próximo. Como todos acreditamos, os meios de comunicação são fundamentais nessas horas. Infelizmente, muitos deles acabam caindo na mesmice de apenas repetir a estatística (número de casos e mortes) em vez de trazer discussões frutíferas para que os cidadãos tomem atitudes sensatas e condizentes. Acredito que a verdadeira preocupação para a maioria dos Italianos começou quando governo decretou a paralisação de todas as atividades não essenciais. Foi quando a ficha caiu para muitos.

Imagem - Agora com as medidas restritivas de circulação, as pessoas estão obedecendo?

Victor Barasuol - Acreditamos que a grande maioria está obedecendo (podemos falar com propriedade do que acontece em Gênova). A polícia patrulha a cidade, solicita a apresentação de um documento chamado Autodichiarazione. Tal documento deve ser impresso e preenchido com informações relativas à motivação do deslocamento, a origem da partida (geralmente a sua residência) e ao destino (geralmente o supermercado ou trabalho). A não apresentação de tal documento pode resultar em multa ou prisão. 

Imagem - Já existem problemas de abastecimento em supermercados e farmácias?

Victor Barasuol - Não existe e nunca houve. Desde o início da quarentena, ficou claramente dito que todos os setores essenciais, aqueles relacionados ao fornecimento de alimentos e medicamentos, continuariam suas atividades normalmente. Ao contrário do que a população poderia pensar, alguns mercados ainda prolongaram a faixa de horário de trabalho para diminuir a concentração de pessoas ao longo do dia. 

Imagem - Na questão do medo da doença, como está sendo? 

Victor Barasuol - Confesso que nos preocupamos, mas não temos medo. Principalmente pelo fato de não fazermos parte do grupo de risco. Às vezes nos preocupamos um pouco mais, quando vemos pessoas demasiadamente preocupadas ao nosso redor. Com máscara, luvas, se movimentando rápido de um local para outro. É normal você se pergunta: será que não estou sabendo de alguma coisa? Nessas horas, a melhor coisa é a informação. Se temos que nos desesperar, que seja por um motivo claro. Porque, dentro de casa, um desesperado não serve pra nada. Imagina dois. 

Imagem - Vocês têm contatos com outros brasileiros que residem na Itália? Como estão os demais?

Victor Barasuol - Acho que nunca tivemos tanto contato com outros brasileiros como agora. Hoje em dia, o Whatsapp é uma ferramenta de muita companhia colocando todos em uma sala virtual. Felizmente, os nossos brasileiros que conhecemos aqui na Itália estão todos bem. Com certeza os brasileiros que vivem na região da Lombardia, a mais crítica de todas, devem estar passando por maus bocados. O verdadeiro drama causado por essa epidemia, do desconforto à tristeza, não é visto de dentro das nossas casas. Ele é visto de dentro dos hospitais que concentram o produto desse contágio.


Imagem - Há algum tipo de discriminação contra os imigrantes em função da escassez de atendimentos na saúde?

Victor Barasuol - Até o presente momento não vimos nem ouvimos nenhuma informação do gênero.

Imagem - Como vocês estão lidando com a crise? Há momentos de muito medo, insegurança?

Victor Barasuol - Eu trabalho em um instituto de pesquisa majoritariamente público e não tivemos nenhum tipo de aceno sugerindo corte no quadro de funcionários. No meu setor, talvez a crise tenha impacto nos investimentos relativos ao orçamento de 2021 e de longo prazo. Não acredito que pessoas sejam demitidas, mas caso ocorram cortes em orçamentos futuros, haverá uma redução no número de novos contratos. De casa, consigo realizar 70% das minhas atividades usando chamadas em teleconferência. No caso da Daliarqui, a situação é bem incerta. Ela é engenheira de automação em uma empresa que fornece serviço de consultoria. Consegue trabalhar pouco de casa, pois a empresa limita bastante as atividades que podem ser feitas remotamente. Ela conta que alguns estagiários já foram desligados. Por enquanto não se tem ideia do que pode acontecer, mas a preocupação é grande caso a quarentena se prolongue por muito tempo. 

Imagem - As embaixadas do Brasil estão trabalhando para repatriar os brasileiros. Vocês pretendem retornar em breve?

Victor Barasuol - Tenho muito desejo de retornar ao Brasil. Quem sabe um dia para São Miguel do Oeste, para perto da família e dos velhos amigos. A Daliarqui já conheceu o Brasil e sempre se sente em casa quando passamos um tempo lá. Porém, atualmente temos a intenção de permanecer mais algum tempo por aqui.

Imagem - Vocês devem estar acompanhando as notícias do Brasil em relação à pandemia. Vocês acham que a situação aqui pode chegar ao nível da Itália?    

Victor Barasuol - Acreditamos que a situação pode ficar muito pior. O governo, por escassez de recursos ou estratégia, está faltando com uma das ações de contenção da epidemia mais importantes: realizar testes em massa para identificar e isolar (colocar em quarentena domiciliar) os infectados. Espero que isso mude. Gostaria de salientar um ponto de vista pessoal relacionado a pergunta: não acredito que seja coerente que as pessoas analisem a situação e se preocupem olhando a estatística nacional. O Brasil tem dimensões continentais, com muitos focos, e por esses e outros motivos relacionados à estrutura sanitária tem grandes chances de superar a Itália. Porém, cada região haverá a sua dinâmica. Santa Catarina teve uma medida de quarentena que pareceu mais precoce do que a da Itália e acredito que isso fará muita diferença para o achatamento da curva. São Miguel do Oeste entrou em quarentena sem nenhum caso positivo e a população migueloestina deve lembrar deste fato para gerenciar bem os recursos e as ações coletivas. É um momento que devemos nos unir, utilizar os meios digitais com sabedoria, seguir as normas básicas para evitar a contaminação, e sobretudo, cuidar dos nossos velhinhos. 

Legenda: Apesar da situação na Itália, Victor e Daliarqui 31 anos, pretendem permanecer no país 



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