Jornal Imagem - Brasil - 23/05/2026 12:50 - Visualizações: 25
Empregos – Por Euclides Staub, diretor do jornal Imagem
Entre o benefício social, o MEI e a carteira assinada: o novo retrato do trabalho no Brasil
O mercado de trabalho brasileiro mudou profundamente nos últimos anos. A velha lógica do emprego formal como único caminho de estabilidade passou a dividir espaço com uma realidade mais complexa: trabalhadores informais, microempreendedores individuais, plataformas digitais e famílias que dependem parcialmente de benefícios sociais para complementar a renda.
Hoje, o Brasil vive uma espécie de transição silenciosa. De um lado, cresce a formalização via MEI; de outro, aumenta a sensação de que a carteira assinada já não entrega sozinha a segurança econômica que entregava décadas atrás.
O modelo tradicional da CLT continua oferecendo direitos importantes: férias, décimo terceiro, FGTS, aposentadoria, seguro-desemprego e acesso facilitado ao crédito. Além disso, programas como o abono salarial seguem funcionando como complemento de renda para milhões de brasileiros. Em 2026, o benefício poderá alcançar trabalhadores que receberam até R$ 2.766 mensais no ano-base de 2024.
Mas a realidade econômica empurrou milhões para outra direção.
O crescimento do MEI transformou ambulantes, motoristas, cabeleireiros, eletricistas, entregadores e pequenos prestadores de serviço em empreendedores formalizados. O modelo simplificado permitiu acesso a CNPJ, emissão de notas fiscais e benefícios previdenciários com contribuição reduzida. Hoje, o país já ultrapassa a marca de milhões de microempreendedores individuais ativos.
O problema é que o debate público passou a tratar MEI e emprego formal como se fossem inimigos. Não são.
O MEI nasceu para incluir quem estava completamente fora do sistema. Para muitos brasileiros, ele representa dignidade econômica. O trabalhador deixa de atuar invisivelmente e passa a existir para o crédito, para a previdência e para o mercado financeiro.
Ao mesmo tempo, há um fenômeno preocupante: a substituição de empregos formais por contratos precarizados travestidos de empreendedorismo. Em muitos setores, empresas preferem contratar “PJ” para reduzir encargos trabalhistas. O resultado é um trabalhador sem férias, sem proteção em períodos de doença e frequentemente sem estabilidade mínima.
Essa discussão ganhou força justamente porque o custo de vida aumentou enquanto grande parte dos salários permaneceu comprimida. Em muitos casos, famílias sobrevivem combinando renda informal, pequenos serviços e programas sociais.
E aqui surge outro preconceito comum: a ideia de que benefícios sociais desestimulam o trabalho.
Os números e a realidade mostram algo diferente. Benefícios sociais no Brasil funcionam muito mais como proteção de sobrevivência do que como conforto financeiro. Em regiões pobres, eles impedem fome, evasão escolar e colapso familiar.
Inclusive, programas sociais já convivem com o empreendedorismo formalizado. Beneficiários podem abrir MEI sem perder automaticamente o auxílio, desde que a renda familiar permaneça dentro dos critérios estabelecidos.
O verdadeiro desafio brasileiro talvez não seja escolher entre CLT, MEI ou benefício social. O desafio é criar um sistema capaz de oferecer mobilidade econômica real.
O trabalhador brasileiro não quer viver de auxílio permanente. Também não deseja abrir mão da proteção social para sobreviver como “empreendedor por necessidade”. O que a maioria procura é previsibilidade: renda suficiente, segurança mínima e possibilidade de crescer.
Enquanto isso não acontece, o país seguirá convivendo com um modelo híbrido: pessoas que trabalham formalmente durante o dia, fazem renda extra à noite, mantêm um MEI ativo e ainda dependem parcialmente de políticas públicas para fechar as contas do mês.
Não é acomodação. É adaptação.
E talvez essa seja a principal fotografia do Brasil contemporâneo.
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