Jornal Imagem - 08/06/2026 18:06 - Visualizações: 24
O tarifaço e seus efeitos - Por Euclides Staub – Professor e jornalista
As novas ameaças tarifárias do governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros reacendem um debate que vai muito além das relações bilaterais. Trata-se de mais um capítulo da política comercial protecionista adotada pelo presidente Donald Trump, marcada por medidas que, sob o argumento de combater práticas consideradas desleais, acabam produzindo insegurança para o comércio internacional e prejuízos para diferentes economias.
Após a Justiça norte-americana ter barrado parte das tarifas impostas anteriormente, a Casa Branca recorreu a novos instrumentos legais para justificar a retomada das cobranças. No caso do Brasil, duas investigações resultaram em recomendações de sobretaxas que podem alcançar 25% sobre diversos produtos nacionais, além de uma tarifa adicional relacionada a questões trabalhistas.
Entre as justificativas apresentadas pelas autoridades americanas há argumentos que suscitam questionamentos. O caso do Pix é emblemático. O sistema de pagamentos instantâneos, criado e administrado pelo Banco Central, foi citado como exemplo de política que supostamente favoreceria uma empresa nacional em detrimento de concorrentes estrangeiros. A alegação ignora a natureza pública do sistema e sua convivência com outras modalidades de pagamento amplamente utilizadas no mercado brasileiro.
Por outro lado, alguns pontos levantados pelos relatórios americanos refletem discussões que já fazem parte do debate público nacional. Questões relacionadas ao combate à corrupção, à segurança jurídica e à liberdade de expressão continuam gerando controvérsias dentro e fora do país. São temas que exigem reflexão permanente das instituições brasileiras, independentemente das pressões externas.
Ainda assim, a adoção de tarifas como instrumento de pressão política ou institucional merece críticas. Medidas dessa natureza atingem setores produtivos inteiros, comprometem investimentos, reduzem a competitividade e penalizam trabalhadores e empresas que não possuem qualquer responsabilidade sobre os fatos apontados nos relatórios. Ao transformar divergências políticas e institucionais em barreiras comerciais, corre-se o risco de produzir danos econômicos sem resolver os problemas que motivaram a controvérsia.
O comércio internacional tem sido, historicamente, um importante motor de crescimento econômico e geração de prosperidade. Sua fragilização por meio de medidas unilaterais e protecionistas representa um retrocesso para todos os envolvidos. O caminho mais adequado para a solução de divergências entre nações continua sendo o diálogo diplomático, o fortalecimento das instituições e o respeito às regras que regem as relações internacionais.